Masoquistas

Ele mal havia saído de dentro dela e ela já girava o corpo para o outro lado, encenando um sono cheio de prazer e cansaço. Sabia que ele iria se levantar e ir ao banheiro, como de costume, e planejou fingir que já havia dormido quando ele voltasse. Não queria conversar, não queria comentar… há tempos o sexo havia se tornado um refúgio da dor que sentia ao vê-lo, ao saber que não se amavam mais e ao mesmo tempo não conseguiam se separar.

Tinha certeza de que ele também pensava nisso, nesse “não caso de amor” que viviam e que lhes era vital. Mas nunca tocaram no assunto. Na cama, pedia para que ele a penetrasse com força, que a machucasse, para que a dor física fosse maior do que a constante pena que sentia por saber que não se queriam mais.

Enquanto, como previsto, ele se levantava para ir ao banheiro, fechou os olhos e sentiu uma lágrima escorrer do canto de seu olho e molhar o travesseiro. Quanto tempo mais levariam isso adiante? Era justo continuarem usando seus corpos quando suas almas já não estavam ali? E se perguntava quando foi, quando ela descobriu que não se amavam mais mas, sim, haviam se tornado dependentes daquele “não amor”.

Decidiu, então, questioná-lo. Arquitetou suas palavras: “Quando foi que você deixou de me amar?”, mas isso lhe pareceu humilhante demais, e cobrava algo que ela mesma não saberia responder se ele respondesse com a mesma pergunta. “Por que nos perdemos?”, porém já havia chegado à conclusão de que nunca haviam se encontrado por inteiro para poderem se perder. “Vamos tentar recomeçar.”, mas já era tarde demais, ela mesma não tinha mais vontade de vê-lo.

Ele voltou, deitou na cama e a abraçou. Os dois sentiam o peso da falta do amor, essa “não presença” que os envolvia e os fazia estreitar seus corpos a fim de preencher o espaço de alguma coisa que, afinal, nunca havia estado ali.

Ela sabia que ele sabia. Ele sabia!

Quanto tempo mais conseguiriam dissimular, esconder de si mesmos que já não queriam a companhia um do outro. Cuidar de cada detalhe para que eles mesmos não percebecem o que já sabiam. Não, não queriam tentar se convencer de que ainda se amariam. Já haviam desistido e não tinham mais vontade de tentar.

Ficaram alguns segundos abraçados. Foi quando ela se virou e ficou a poucos centímetros do rosto dele. Abriu a boca para dizer o que lhe parecia mais apropriado e a melhor coisa que havia conseguido pensar: “Você já sabe. Acabou.”

Deu-lhe um beijo e pediu que a fizesse sentir dor mais uma vez. Estavam viciados.

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Depois daquele beijo


Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem.

Caio Fernando Abreu

 

Se conheceram quando tinham uns vinte anos. Ele já tinha reparado nela, ela já tinha reparado que ele reparava. Bastaram alguns minutos de conversa para perceberem que seriam importantes um na vida do outro.

Começaram a namorar depois de duas semanas juntos. Ele se enchia de alegria com os excessos de ternura dela, se encantava cada vez que mergulhava nos olhos castanhos emoldurados por cílios enormes que ela tinha. Achava lindo o modo como ela cantava acompanhando o seu violão.

Ela, se encantou com as bobagens que ele falava por horas sem parar. Às vezes se perguntava se realmente existiria alguém que a completaria tanto quanto ele, mesmo sem se sentir totalmente à vontade ainda.

Namoraram por tanto tempo e se davam tão bem que se tornaram um daqueles casais que são um o aposto do outro. Ele era o Luís da Talita, ela era a Talita do Luís. E, assim, cresceram juntos.

Seus caminhos foram se tornando um caminho só e quando perceberam já não havia razão para viverem em casas separadas. Começaram a morar juntos. Ele não se lembrava mais de quem era antes de conhecê-la, mas sabia muito bem quem havia se tornado por causa dela. E gostava muito mais desse Luís do que do Luís de antes.

Se formaram juntos. Graças à insistência dela para que ele estudasse e não faltasse às aulas, ele conseguiu correr atrás do tempo que havia perdido com cervejas e farras.

Depois de formados, resolveram se casar. Não tinham emprego, não tinham casa, mas sabiam que construiriam tudo juntos. Afinal, tinham um ao outro.

Vieram os filhos, que eles criaram com base em suas ideologias e sonhos: ensinavam música para eles, faziam passeios aos domingos, brincavam todos juntos… Eram uma família feliz agora, transmitiram para os filhos todo o amor que tinham um pelo outro.

Pensou em tudo isso depois do primeiro beijo que deu nele. Não sabia que aqueles sonhos existiriam apenas no seu plano imaginário, jamais se concretizariam. Mas Talita sonhava. E por sonhar, se entregou como nunca havia se entregado a ninguém. Ela queria que ele fosse o homem da vida dela. Queria morar junto, ter filhos com ele, ser a Talita do Luís.

Um ano depois daquele primeiro beijo, lembrou-se dele. Já não se falavam mais, tornaram-se estranhos um para o outro. Ela já tinha um outro alguém, ele ainda encantava meninas periodicamente. Mesmo assim se lembrou dos sonhos que teve há um ano atrás. E, mesmo tentando não se importar, lamentou.

Olhou para o lado e viu que já era quase uma da tarde. Correu para o encontro que tinha combinado com a melhor amiga. Durante o almoço, não tocou no assunto.

Por que Lady Jesus?

Acho que me precipitei um pouco ao criar um blog chamado “Lady Jesus” e não dar uma explicação no mínimo razoável para o nome que escolhi. E é melhor eu agir rápido, antes que comecem a achar que foi uma referência à Lady Gaga, minha cantora favorita – #not – ou que eu sou alguma testemunha de Jeová em busca de fieis.

Lady Jesus é uma música do The Asteroids Galaxy Tour, uma banda dinamarquesa que eu descobri faz pouco tempo. O som deles é empolgante demais, do tipo que, pelo menos pra mim, chega a ser arriscado colocar no iPod e sair na rua. Depois de alguns segundos eu provavelmente estarei dançando o moonwalk e cantando freneticamente, tentando imitar a voz irritantemente desleixada e linda da Mette. Se interessar a alguém, vale a pena ouvir The sun ain’t shining no more, Push the envelope, Around the Bend, The golden age, Satellite, todas muito gostosas e bem agitadinhas.

Mas vamos à história do nome do blog. Minha ideia inicial era “Pirando na batatinha” (meu apelido é Batata) mas, por incrível que pareça, esse nome tosco já existia. Então, tentei “Young folks”, que é o nome de uma das minhas músicas preferidas da vida toda. Já existia também. Tentei, chutando baixo, uns dez nomes e todos eles já existiam. Então fui apelar para o iTunes. Fui direto nessa banda, pensei em “Bad fever” e, que surpresa, já existia um blog com esse nome. E então, eu vi: “Lady Jesus”. Nunca tinha parado para prestar atenção na letra, fui olhar, li um pouco da história da música e gostei. Pronto. Não tinha nenhum blog com esse nome.

Muito bem, blog criado, fui pesquisar mais sobre a música, para que o nome do blog soasse como uma ideia genial quando eu explicasse para alguém (eu assumo que fui vencida pelo cansaço e que se o primeiro nome liberado no wordpress.com tivesse sido “Rainha dos Baixinhos”, eu não me importaria muito).

Enfim, pesquisei e aí veio a surpresa: Lady Jesus é uma música sobre algo que eu conheço! Algo que eu, mesmo que tenha sido só um pouquinho, vivi.

A história é a seguinte: Ungdomshuset (Ungdom = jovem; huset = casa) foi um local, em Copenhagen, Dinamarca, que, de 1982 a 2007, foi um espaço para os jovens artistas e simpatizantes da cidade se encontrarem para fazer e falar sobre música, política, teatro, entre outros assuntos da cena underground, além de servir de espaço free para eles usarem drogas e viverem toda a loucura que um jovem pode querer. Eles se autodenominavam “aqueles que ninguém quer ter por perto” e o casarão chegava a receber mais de 500 visitantes por semana. Era propriedade do governo que, muitas vezes, por motivo de má manutenção da casa, quis fechá-la ou mesmo derrubá-la. Em 2001, o prédio foi vendido para uma mulher.

Os jovens resistiram até 2007. Mensagens como “Troublemakers of the World, we bid you Welcome!” (algo como “Encrenqueiros de todo o mundo, nós mandamos as boas-vindas!”) eram enviadas a várias comunidades autônomas do mundo para que viessem ajudar na luta para deixar o casarão de pé, e mesmo com toda a resistência (que durou meses), chegando até mesmo a se trancarem dentro da casa para que ela não fosse demolida, os ativistas não venceram a polícia.

Ungdomshuset sendo demolida em 5 de março de 2007

Assim como a Christiania (onde todos podem voar…), uma cidade livre, autônoma e independente das autoridades do país dentro de Copenhagen, a Ungdomshuset era um lugar onde o espírito de comunidade era o principal lema de vida das pessoas. Ao sair da Christiania, vemos a inscrição “You’re now entering the UE”. Quer maneira mais sutil de falar “Somos hippies socialistas!” que essa?

Saindo da Christiania...

Mas voltando ao foco do post… aonde eu entro nisso? Eu estive em Copenhagen em 2007. Depois de ter acompanhado pela televisão como foi a luta dos jovens contra a polícia, a demolição do Folkets Hus (“Casa do povo”, nome original do Ungdomshuset) e a tristeza da população, pude ver a área limpa, sem nenhum vestígio do que um dia aquele casarão tinha representado para várias gerações. A casa da Mari, intercambista que me hospedou em Cope (apelido carinhoso que a gente dava pra bela Copenhagen), ficava no mesmo bairro da Ungdomshuset. Ela me levou lá e eu, turista que era (e sou), claro, tirei fotos do sonho demolido. E aí está:

Adolescente gordinha no que sobrou da Ungdomshuset

Ok, e quando chegamos ao Lady Jesus? O porquê da música? Lady Jesus foi o apelido que os jovens que o frequentavam  deram para a mulher que comprou o casarão. Os compositores das música, Mette e Lars, do Asteroids, moravam no bairro da Ungdomshuset e estavam sempre por lá. Na música, eles narram a história desta mulher, uma líder religiosa, que, ao chegar ao bairro, e comprar a propriedade, destruiu a alma deste local cheio de artistas, causando um dos maiores conflitos entre o povo e a polícia que ocorreram na história recente da Dinamarca.
Minha referência não é à Lady Jesus, mas sim a este lugar, a Folkets Hus, onde as pessoas eram livres, faziam música, faziam amigos, eram felizes… Acho que o meu blog, para ser como eu quero, precisa ser um tipo de Ungdomshuset também.
Troublemakers of the world, I bid you Welcome!

Minha vida e as espinhas

A primeira coisa que eu reparo em uma pessoa é a pele. Sou alucinada por pele limpa, sem aqueles poros abertos, sem cravos ou espinhas, daquelas que dá até pra ver os pelinhos do rosto. Pele de neném.

Qual não será a sua surpresa, querido leitor imaginário deste blog, quando eu disser que minha pele não é assim. E muito pelo contrário.

Entrei na puberdade com dez anos, fiquei mocinha, adquiri peitinhos (peitos, na verdade) e elas chegaram: minhas adoradas espinhas. De lá pra cá, uma história de amor e ódio. Tenho fotos medonhas, que jamais serão divulgadas, da minha fase mais crítica, por volta dos quinze anos. Até então, eu tomava antiinflamatórios, fazia limpeza de pele todos os meses (nota: há dez anos, uma limpeza de pele custava R$15,00. Hoje, na mesma esteticista, o preço é R$65,00. Inflação dizendo “oi”) e a dupla sabonete anti-acne + protetor solar já eram uma extensão de mim.

Tinha crises de choro, dizendo para minha mãe que eu era feia e que ninguém conseguia nem olhar para mim sem reparar nas minhas espinhas que, agora sem drama adolescente, realmente eram horríveis. Minha sorte foi nunca ter apertado uma espinha sequer. Se não fosse isso, hoje eu teria buracos enormes no rosto. E buracos são para sempre (claro, nada é para sempre quando se tem dinheiro para fazer um peeling de cristal, mas este não é o caso).

Como eu disse, até então, esses eram os métodos que eu usava para “controlar” as minhas espinhas. Uns três meses antes de completar quinze anos, já organizando a minha tão sonhada festa, entrei em pânico por causa da minha pele. Fiz minha mãe me levar a uma dermatologista nova, que me apresentou o Roacutan.

O Roacutan foi um sonho que durou oito meses. Todo mundo conhece alguém que já fez o tratamento, geralmente é aquele colega da época do colegial, que dava até aflição olhar na cara, e que, de um dia pro outro, apareceu com uma pele de bumbum de neném. O medicamento é bem forte, é proibido tomar bebida alcólica (seu fígado não aguentaria) ou engravidar durante o tratamento pois os bebês nascem com problemas de formação. Aos quinze anos, acreditem, eu era bem santinha, ainda não bebia e não tinha vida sexual ativa, então não passei por nenhum sacrifício. O único efeito colateral que tive (a parte de “efeitos colaterais” da bula do Roacutan vai de dores de cabeça leves a tentativas de suicídio – para desespero dos meus pais) foi minha boca raxada. Não era humanamente possível viver sem uma manteiga de cacau. De manhã, só podia abrir a boca para escovar os dentes ou falar depois de várias camadas de manteiga de cacau. Caso contrário, meus lábios se partiriam e o sangue começaria a jorrar.

Durante os oito meses do tratamento e mais uns quatro depois dele ter terminado, tive a pele dos sonhos de qualquer pessoa suficientemente neurótica no que se trata de pele. Não precisava passar nenhum produto, nem lavar três vezes ao dia. A pele ficava sequinha e lisa, poros fechados, nenhuma espinha, nenhum cravinho. Perfeita mesmo.

A maior vantagem do Roacutan é que ele supostamente te deixa com uma pele sem acne PELO RESTO DA VIDA. Quer dizer, pelo menos em 90% dos casos. Nos outros 10%, a acne volta, não com a mesma intensidade, mas volta. Agora vem a melhor parte: é claro que eu estou no grupo dos 10%.

Sim, depois de viver um sonho acordada, comecei a me desesperar quando as espinhas voltaram a aparecer. Como assim, não era pra sempre?

Quando fiz intercâmbio elas deram uma acalmada de novo por causa do clima frio, mas foi só colocar o dedinho no Brasil que lá estavam elas pra me dar as boas-vindas, minhas BFF’s.

Hoje tenho 21 anos e ainda não me conformo com o fato de eu ter espinhas. Lavo o rosto três vezes ao dia, uso um ácido forte todas as noites, uso protetor solar. Sou uma cdf quando o assunto é pele. Seria muito pedir pra ser recompensada?

Claro que hoje minha pele melhorou e eu tenho poucas espinhas. Acontece que, quase sempre, elas resolvem aparecer todas juntas (e só quem tem acne sabe como elas gostam de aparecer nos lugares mais inusitados possíveis. Tipo agora: tenho um terceiro olho, uma pinta da Cindy Crawford e um queixo novo). Também aprendi a me maquiar bem, mas isso só funciona pra noite. Maquiagem + sol = vergonha alheia (vergonha própria, no caso).

Já passei por poucas e boas, como a vez em que fui fazer uma limpeza de pele e voltei com o queixo todo queimado. De verdade: a esteticista passou um ácido quando a pele estava super sensível, e ele queimou tanto que parecia que eu tinha ralado o queixo no asfalto. Também tenho que aturar aquelas pessoas agradáveis que acham que você não sabe que está com uma espinha-enorme-que-chama-mais-atenção-do-que-se-você-estivesse-com-uma-melancia-na-cabeça, e sempre dizem “Noooossa, que espinha amarela! Por que você não espreme?” Ou então o seu dentista, que, sem mais nem menos, diz que vai te indicar uma boa dermatologista.

Acho que comigo vai ser assim: um dia vou acordar sem nenhuma espinha. Vou ser a pessoa mais feliz do mundo, me olhar no espelho o dia inteiro… até a hora que eu perceber alguma coisa estranha no canto do olho, olhar mais perto e perceber que eu estou enrugando.