Minha vida e as espinhas

A primeira coisa que eu reparo em uma pessoa é a pele. Sou alucinada por pele limpa, sem aqueles poros abertos, sem cravos ou espinhas, daquelas que dá até pra ver os pelinhos do rosto. Pele de neném.

Qual não será a sua surpresa, querido leitor imaginário deste blog, quando eu disser que minha pele não é assim. E muito pelo contrário.

Entrei na puberdade com dez anos, fiquei mocinha, adquiri peitinhos (peitos, na verdade) e elas chegaram: minhas adoradas espinhas. De lá pra cá, uma história de amor e ódio. Tenho fotos medonhas, que jamais serão divulgadas, da minha fase mais crítica, por volta dos quinze anos. Até então, eu tomava antiinflamatórios, fazia limpeza de pele todos os meses (nota: há dez anos, uma limpeza de pele custava R$15,00. Hoje, na mesma esteticista, o preço é R$65,00. Inflação dizendo “oi”) e a dupla sabonete anti-acne + protetor solar já eram uma extensão de mim.

Tinha crises de choro, dizendo para minha mãe que eu era feia e que ninguém conseguia nem olhar para mim sem reparar nas minhas espinhas que, agora sem drama adolescente, realmente eram horríveis. Minha sorte foi nunca ter apertado uma espinha sequer. Se não fosse isso, hoje eu teria buracos enormes no rosto. E buracos são para sempre (claro, nada é para sempre quando se tem dinheiro para fazer um peeling de cristal, mas este não é o caso).

Como eu disse, até então, esses eram os métodos que eu usava para “controlar” as minhas espinhas. Uns três meses antes de completar quinze anos, já organizando a minha tão sonhada festa, entrei em pânico por causa da minha pele. Fiz minha mãe me levar a uma dermatologista nova, que me apresentou o Roacutan.

O Roacutan foi um sonho que durou oito meses. Todo mundo conhece alguém que já fez o tratamento, geralmente é aquele colega da época do colegial, que dava até aflição olhar na cara, e que, de um dia pro outro, apareceu com uma pele de bumbum de neném. O medicamento é bem forte, é proibido tomar bebida alcólica (seu fígado não aguentaria) ou engravidar durante o tratamento pois os bebês nascem com problemas de formação. Aos quinze anos, acreditem, eu era bem santinha, ainda não bebia e não tinha vida sexual ativa, então não passei por nenhum sacrifício. O único efeito colateral que tive (a parte de “efeitos colaterais” da bula do Roacutan vai de dores de cabeça leves a tentativas de suicídio – para desespero dos meus pais) foi minha boca raxada. Não era humanamente possível viver sem uma manteiga de cacau. De manhã, só podia abrir a boca para escovar os dentes ou falar depois de várias camadas de manteiga de cacau. Caso contrário, meus lábios se partiriam e o sangue começaria a jorrar.

Durante os oito meses do tratamento e mais uns quatro depois dele ter terminado, tive a pele dos sonhos de qualquer pessoa suficientemente neurótica no que se trata de pele. Não precisava passar nenhum produto, nem lavar três vezes ao dia. A pele ficava sequinha e lisa, poros fechados, nenhuma espinha, nenhum cravinho. Perfeita mesmo.

A maior vantagem do Roacutan é que ele supostamente te deixa com uma pele sem acne PELO RESTO DA VIDA. Quer dizer, pelo menos em 90% dos casos. Nos outros 10%, a acne volta, não com a mesma intensidade, mas volta. Agora vem a melhor parte: é claro que eu estou no grupo dos 10%.

Sim, depois de viver um sonho acordada, comecei a me desesperar quando as espinhas voltaram a aparecer. Como assim, não era pra sempre?

Quando fiz intercâmbio elas deram uma acalmada de novo por causa do clima frio, mas foi só colocar o dedinho no Brasil que lá estavam elas pra me dar as boas-vindas, minhas BFF’s.

Hoje tenho 21 anos e ainda não me conformo com o fato de eu ter espinhas. Lavo o rosto três vezes ao dia, uso um ácido forte todas as noites, uso protetor solar. Sou uma cdf quando o assunto é pele. Seria muito pedir pra ser recompensada?

Claro que hoje minha pele melhorou e eu tenho poucas espinhas. Acontece que, quase sempre, elas resolvem aparecer todas juntas (e só quem tem acne sabe como elas gostam de aparecer nos lugares mais inusitados possíveis. Tipo agora: tenho um terceiro olho, uma pinta da Cindy Crawford e um queixo novo). Também aprendi a me maquiar bem, mas isso só funciona pra noite. Maquiagem + sol = vergonha alheia (vergonha própria, no caso).

Já passei por poucas e boas, como a vez em que fui fazer uma limpeza de pele e voltei com o queixo todo queimado. De verdade: a esteticista passou um ácido quando a pele estava super sensível, e ele queimou tanto que parecia que eu tinha ralado o queixo no asfalto. Também tenho que aturar aquelas pessoas agradáveis que acham que você não sabe que está com uma espinha-enorme-que-chama-mais-atenção-do-que-se-você-estivesse-com-uma-melancia-na-cabeça, e sempre dizem “Noooossa, que espinha amarela! Por que você não espreme?” Ou então o seu dentista, que, sem mais nem menos, diz que vai te indicar uma boa dermatologista.

Acho que comigo vai ser assim: um dia vou acordar sem nenhuma espinha. Vou ser a pessoa mais feliz do mundo, me olhar no espelho o dia inteiro… até a hora que eu perceber alguma coisa estranha no canto do olho, olhar mais perto e perceber que eu estou enrugando.

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3 comentários »

  1. Thiago Vasques Said:

    Ei Thís, parabéns pelo blog, eu gostei.
    Muito boa sua iniciativa de postar, bom texto.
    Continue postanto.
    Beijo

  2. É, amiga, nunca tive acne nem nada, mas de vez em quando me surge uma espinha ou outra…dentro do ouvido, do nariz…lugares não muito visíveis, mas nem por isso agradáveis.
    Quanto às rugas, aproveita que agora fazem cremes para mulheres maduras de 20 anos e já vai prevenindo, kkk. Roacutan infelizmente não segura os pés de galinha =)
    Beijooo

  3. Telma Tamaoki Figueiredo Said:

    Quem te conhece sabe que suas espinhas não são tudo isto que vc fala. Linda como é, passam desapercebidas. Mas me diverti com o texto lembrando das suas crises de baixa estima que me deixavam doidinha.
    Te amo muito, com ou sem espinhas…


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