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Masoquistas

Ele mal havia saído de dentro dela e ela já girava o corpo para o outro lado, encenando um sono cheio de prazer e cansaço. Sabia que ele iria se levantar e ir ao banheiro, como de costume, e planejou fingir que já havia dormido quando ele voltasse. Não queria conversar, não queria comentar… há tempos o sexo havia se tornado um refúgio da dor que sentia ao vê-lo, ao saber que não se amavam mais e ao mesmo tempo não conseguiam se separar.

Tinha certeza de que ele também pensava nisso, nesse “não caso de amor” que viviam e que lhes era vital. Mas nunca tocaram no assunto. Na cama, pedia para que ele a penetrasse com força, que a machucasse, para que a dor física fosse maior do que a constante pena que sentia por saber que não se queriam mais.

Enquanto, como previsto, ele se levantava para ir ao banheiro, fechou os olhos e sentiu uma lágrima escorrer do canto de seu olho e molhar o travesseiro. Quanto tempo mais levariam isso adiante? Era justo continuarem usando seus corpos quando suas almas já não estavam ali? E se perguntava quando foi, quando ela descobriu que não se amavam mais mas, sim, haviam se tornado dependentes daquele “não amor”.

Decidiu, então, questioná-lo. Arquitetou suas palavras: “Quando foi que você deixou de me amar?”, mas isso lhe pareceu humilhante demais, e cobrava algo que ela mesma não saberia responder se ele respondesse com a mesma pergunta. “Por que nos perdemos?”, porém já havia chegado à conclusão de que nunca haviam se encontrado por inteiro para poderem se perder. “Vamos tentar recomeçar.”, mas já era tarde demais, ela mesma não tinha mais vontade de vê-lo.

Ele voltou, deitou na cama e a abraçou. Os dois sentiam o peso da falta do amor, essa “não presença” que os envolvia e os fazia estreitar seus corpos a fim de preencher o espaço de alguma coisa que, afinal, nunca havia estado ali.

Ela sabia que ele sabia. Ele sabia!

Quanto tempo mais conseguiriam dissimular, esconder de si mesmos que já não queriam a companhia um do outro. Cuidar de cada detalhe para que eles mesmos não percebecem o que já sabiam. Não, não queriam tentar se convencer de que ainda se amariam. Já haviam desistido e não tinham mais vontade de tentar.

Ficaram alguns segundos abraçados. Foi quando ela se virou e ficou a poucos centímetros do rosto dele. Abriu a boca para dizer o que lhe parecia mais apropriado e a melhor coisa que havia conseguido pensar: “Você já sabe. Acabou.”

Deu-lhe um beijo e pediu que a fizesse sentir dor mais uma vez. Estavam viciados.